Thursday, March 15, 2018

albert camus


se alguém tivesse me dito que seria assim
eu não teria acreditado
guerras civis
crise econômica
fim do mundo
eu e você
sobrevivemos a tudo isso
entre as nossas guerras
civis
as nossas crises
econômicas
os fins
dos nossos mundos
as separações
eu
no meu mundo
você
algures
se alguém tivesse me dito que seria assim
eu não teria acreditado
vinte anos
algumas guerras
aquecimento global
um golpe
outro golpe
eu e você no mundo

e ainda assim eu não teria acreditado:
sobrevivemos à adolescência
a maior das guerras
pais mortos mães
e eu não teria acreditado

se alguém tivesse me dito que seria assim
eu teria pensando
essas coisas só acontecem nos filmes
nas novelas
e nas novelas

eu nunca teria acreditado que apesar dos silêncios
desse dedo indicador na boca
sobreviveríamos
aos golpes
um
e outro
e um
ao outro

perdemos os melhores amigos
nossos melhores amantes
e apesar de tudo
ficamos
eu e você
no mundo
inabaláveis
inconcebíveis

sobrevivemos à morte
ao exílio
e nem isso
por abstração
ou vontade
nos termina

eu e você
existimos
um projeto impossível
incompleto e,
ao que parece, eterno

vinte anos é o tempo
de vida dos castores
dos porco-espinho
dos pardais
e de outros projetos que desconheço
e como eles
aqui estamos
na cidade
vinte anos depois
esvaziando copos
sem conseguir pagar a conta
perdendo o último metrô
mas aqui estamos
e não desistimos

apesar de tudo

você vai pro mundo
eu vou pra casa
separados por uma bússola
uma cidadania
um passaporte que não compartilho
mas unidos pelo desejo de não morrer
nem de estar
separados

eu te celebro
tua juventude
a que aparentas e a que trazes
contigo
a doçura da qual nunca fui destinatária
mas na qual confio:

eu sei que ela está aí

te levo comigo
como sempre te trouxe
nunca não estiveste
sempre comigo
numa tatuagem que não era pra você
mas que devia ter sido

te celebro
como nunca te deixei de celebrar
e te agradeço
todos os dias
por tudo
foste o primeiro homem
e ainda és

Wednesday, February 14, 2018

Precisamos de um feminismo para os 99%. É por isso que entraremos em greve neste ano



. tradução do manifesto "We need a feminism for the 99%. That's why women will strike this year", de Linda Alcoff, Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya, Rosa Clemente, Angela Davis, Zillah Eisenstein, Liza Featherstone, Nancy Fraser, Barbara Smith e Keeanga-Yamahtta Taylor, publicado no The Guardian em 27 de janeiro de 2018
. traduzido por adelaide ivánova na série "é doutrinação esquerdista suficiente ou tá pouco?", inventada e liderada por ela mesma




marcha de 8 de março de 2017 em são paulo
em foto de santarosa barreto


Em 8 de março, entramos em greve contra a violência de gênero, contra os homens que cometem violência e contra o sistema que os protege 


No ano passado, no dia 8 de março, nós, mulheres de todos os tipos, fizemos passeatas, paramos de trabalhar e tomamos as ruas em 50 países em todo o mundo. Nos EUA, nos reunimos, marchamos, deixamos os pratos para os homens lavarem, tanto nas principais cidades do país, como nas menores. Nós fechamos três distritos escolares para provar ao mundo, mais uma vez, que, se somos nós que sustentamos a sociedade, também temos o poder de parar tudo.

8 de março está chegando e as coisas pioraram para nós como mulheres neste país.

Em um ano da administração do Trump, nós não somente sofremos abusos verbais e ameaças misóginas em declarações oficiais, como também o regime Trump implementou políticas que continuarão a nos atacar de maneira profundamente institucional.

A Lei de Cortes Fiscais e Emprego acaba com isenções que beneficiam trabalhadores com baixos salários, dos quais a grande maioria são mulheres. A Lei almeja acabar com o Medicaid e Medicare, os únicos dois programas que sobraram nesta cruel paisagem neoliberal, programas estes que apoiam os idosos e os pobres, os doentes e pessoas com necessidades especiais, o planejamento familiar e as crianças - e, portanto, as mulheres, que sao as que fazem o trabalho de cuidar destas pessoas. E enquanto a Lei retira o direito à saúde para crianças imigrantes, introduz o conceito de poupança para que "crianças não nascidas" possam ir à uma universidade no futuro [nota de Adelaide #1: nos EUA o ensino superior é privado e caríssimo], uma forma sorrateira de estabelecer por lei "direitos" da "criança não nascida", agredindo nosso direito fundamental de tomar decisões sobre nossos corpos.

Mas isso não é tudo.

Com estas múltiplas declarações de guerra abertas contra nós, não nos acovardamos. Nós lutaremos.

Quando, no fim do ano passado, mulheres com visibilidade pública e acesso à mídia internacional decidiram quebrar o silêncio sobre assédio e violência sexual, as comportas foram finalmente abertas e um fluxo de denúncias públicas inundou a web. As campanhas #Metoo, #UsToo e #TimesUp tornaram visível o que a maioria das mulheres já conhecia: seja no local de trabalho ou em casa, nas ruas ou nos campos, nas prisões ou nos centros de detenção, a violência de gênero, com seu impacto diferencial racista, assombra a vida cotidiana das mulheres.

O que também ficou claro é que o silêncio público sobre algo que sempre conhecemos, sofremos e lutamos contra, não existe simplesmente porque temos medo ou vergonha de falar: o silêncio é uma imposição. É imposto pelas leis do Congresso que fazem com que as mulheres passem por quase um ano de aconselhamento e mediação obrigatórios, se elas se atreverem a fazer uma queixa oficial. É imposto pelo sistema de justiça criminal que rotineiramente descarta a palavra das mulheres, usando camadas adicionais de intimidação e violência. Nas universidades, os administradores encontram jeitos espertinhos e "legais" para proteger a instituição e o estuprador, enquanto jogam as vítimas para os lobos. As bases racistas destes procedimentos legais exigem solução.

#Metoo, #UsToo e #TimesUp não expõem apenas indivíduos estupradores e misóginos, eles rasgaram o véu que esconde as instituições e as estruturas que protegem esses indivíduos.

A violência de gênero racial é internacional, e internacional deve ser também a luta contra ela. O imperialismo, o militarismo e o colonialismo dos EUA promovem a misoginia em todo o mundo. Não é por acaso que Harvey Weinstein usou a empresa de segurança Black Cube, composta por antigos agentes do Mossad e outras agências de inteligência israelenses, em seus longos anos tentando silenciar e aterrorizar as mulheres. Sabemos que o mesmo Estado que envia dinheiro a Israel para brutalizar o palestino Ahed Tamimi e sua família também financia as prisões nas quais mulheres afro-americanas como Sandra Bland, dentre outras, morreram.

Então, em 8 de março, vamos entrar em greve contra a violência de gênero - contra os homens que cometem violência de gênero e contra o sistema que os protege.

Acreditamos não ter sido por acaso que foram nossas irmãs em [mais alta] posição social que tornaram visível o que todas nós já conhecemos. Elas têm mais meios para fazê-lo, do que a nossa irmã de baixo salário, muitas vezes mulher de cor, que limpa os quartos dos hotéis chiques em Chicago ou a irmã agricultora nos campos californianos.

A grande maioria de nós não pode falar porque não temos poder coletivo em nosso local de trabalho, nem temos, fora do local de trabalho, acesso a apoio social, como por exemplo serviços de saúde. O trabalho, mesmo com seu salário baixo, com colegas e chefes abusivos, com suas longas jornadas, torna-se a única coisa que tememos perder, já que é o único meio que temos para colocar comida na mesa das nossas famílias e cuidar de nossos doentes.

Nós não mantemos a boca fechada [por vontade própria]. Somos obrigados a manter nossas bocas fechadas pelo capitalismo.

Então, no dia 8 de março, falaremos em primeira pessoa contra os agressores individuais que tentaram arruinar nossas vidas e falaremos coletivamente contra a insegurança econômica que nos impede de falar.

Vamos entrar em greve porque queremos expor nossos abusadores, um a um. E vamos entrar em greve porque precisamos de bem-estar social, empregos e salários para alimentar nossas famílias, bem como o direito de sindicalizar, caso sejamos demitidas por confrontamos os abuso.

Assim, em 8 de março, vamos entrar em greve contra o encarceramento em massa, a violência policial e os controles nas fronteiras, contra a supremacia branca e as guerras imperialistas dos EUA, contra a pobreza e a violência estrutural escondida que fecha nossas escolas e nossos hospitais, envenena nossa água e comida e nos rejeita a justiça reprodutiva.

E entraremos em greve por direitos trabalhistas, a igualdade de direitos para todos os imigrantes, a igualdade de remuneração e um salário digno, porque a violência sexual no local de trabalho aflora exatamente onde faltam esses métodos de defesa coletiva.

8 de março de 2018 será um dia do feminismo para os 99%: um dia de mobilização de mulheres negras e de cor, mulheres cis e bi, lésbicas e trans, dos pobres e da baixa renda, de cuidadores não remunerados, de profissionais do sexo e migrantes.

Em 8 de março, #WeStrike.

assinam Linda Alcoff, Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya, Rosa Clemente, Angela Davis, Zillah Eisenstein, Liza Featherstone, Nancy Fraser, Barbara Smith, Keeanga-Yamahtta Taylor

Monday, January 22, 2018

mas pelo menos o capitalismo é livre e democrático, néam?



. trecho do texto "but at least capitalism is free and democratic, right?", de erik olin wright (é um omi, foi mals) publicado no livro "the abcs of socialism"
. traduzido por adelaide ivánova na série "é doutrinação esquerdista suficiente ou tá pouco?", inventada e liderada por ela mesma



essa foto nao tem nada a ver
com esse texto mas pus aqui
pra atrair cliques



nos eua, muitos têm certeza que liberdade e democracia estão inevitavelmente conectados com capitalismo. milton friedman, no seu livro "capitalismo e liberdade", chegou a dizer que capitalismo era uma condição necessária para [a existência de] ambos.

sim, é verdade que o aparecimento e dispersão do capitalismo trouxe consigo uma expansão tremenda de liberdades individuais e, eventualmente, lutas populares por mais formas democráticas de organização política. assim sendo, dizer que o capitalismo obstrui tanto liberdade quanto democracia soa estranho para muitas pessoas.

dizer que capitalismo restringe o crescimento desses valores não significa dizer que capitalismo é contra liberdade e democracia em tooodas as instâncias. É o contrário: no funcionamento de seus processos mais fundamentais, o capitalismo gera déficits severos tanto para a liberdade quanto para  a democracia, danos esses que o capitalismo tampouco pode remediar. foi o capitalismo que promoveu o surgimento de certas formas, ainda que limitadas, de liberdade e democracia, mas foi também o capitalismo que impôs muitas limitações ao desenvolvimento de ambas.

(...)

há cinco formas em que essas limitações se tornam aparentes:

1) "trabalhe ou morra de fome" não é liberdade

o capitalismo está ancorado na [relação entre] acumulação privada de riqueza e procura por salários. as desigualdades econômicas que resultam dessas atividades "privadas" são intrínsecas do capitalismo e criam outras desigualdades que o filósofo philippe van parijs chama de "liberdade real".

o que quer que signifique "liberdade", dentro de sua definição deve estar inserida a habilidade de dizer "não". uma pessoa rica pode livremente decidir se ela quer ou não trabalhar em troca de um salário; uma pessoa pobre sem um meio independente de subsistência não pode tomar essa decisão tão facilmente.

mas o valor de liberdade é mais profundo que isso. também é a habilidade de agir positivamente para a realização de seus próprios projetos -- ou seja, não somente poder decidir quais repostas, mas também quais perguntas você quer fazer.

os filhos de pessoas ricas podem fazer estágios não-remunerados para avançar nas carreiras; os filhos de pais pobres, não.

nesse sentido, o capitalismo tira sim muita liberdade das pessoas. pobreza e abundância existem por causa de uma equação direta entre recursos materiais e os recursos necessários para a autodeterminação. [nota da adelaide #1: o que ele quer dizer é: só tem a tal da autodeterminação quem tem dinheiro pra comprar ela haha]

2) capitalistas decidem

no capitalismo, a forma como o limite entre público e privado é criado impede que decisões cruciais, que afetam grandes quantidades de pessoas, sejam decididas democraticamente. talvez o direito mais fundamental que as empresas privadas têm é o direito de decidir investir ou desinvestir com base estritamente no seus próprios interesses.

a decisão de uma corporação, de investir em um lugar e não investir em outro, é uma questão privada, muito embora essa decisão tenha um impacto radical nas vidas de todas as pessoas, em ambos os lugares. mesmo que uma pessoa argumente que essa concentração de poder na iniciativa privada é necessária para a alocação eficiente de recursos, excluir esse tipo de decisão do controle democrático dizima a capacidade de autodeterminação -- exceto para aqueles que possuem capital.

3) jornada de 8 horas é tirania

empresas capitalistas estão autorizadas a terem ambiente de trabalho ditatoriais. uma parte essencial do poder do dono da empresa é o direito de dizer aos seus contratados o que fazer. essa é a base do contrato de trabalho: o candidato concorda em seguir as ordens de um dono de empresa em troca de um salário.

claro, um dono de empresa pode dar aos trabalhadores autonomia, se ele quiser, e em algumas situações essa é a forma de aumentar mais ainda os lucros. mas essa mesma autonomia é dada ou retirada de acordo com o bel-prazer de um dono de empresa [nota da adelaide #2: aquela balelinha do silicon valley de jornada de cinco horas de trabalho e ambiente de trabalho mais amigável com mesa de pingue-pongue e blablabla não é pensada pra melhorar a vida do trabalhador ATE PQ AS MUIE CONTINUA SENDO PAGA 30% MENOS NEAM, nem tem como objetivo dividir a riqueza produzida pelo trabalhadores, entre os trabalhadores. essa balela é pensada para a) aumentar a produtividade para que b) aumente-se os lucros que c) NAO SERAO divididos entre os trabalhadores que aumentaram os mesmo lucros. mais sobre isso no livro "the new spirit of capitalism", que eu nao li ainda haha]. ora, uma concepção real de autodeterminação não permitiria que autonomia dependesse da preferencia das elites.

um defensor do capitalismo poderia responder que um trabalhador que não goste das regras do seu chefe tem sempre a possibilidade de pedir demissão. mas já que trabalhadores, por definição, não são donos de formas independentes de subsistência, se ele pedir demissão terá que procurar por um novo trabalho, onde terá que se submeter a regras de um outro dono de empresa.

4) governos estão a serviço do interesse de capitalistas

controle das empresas em decisões importantes sobre onde serão feitos investimento cria uma pressão constante nas autoridades publicas, para que estas tomem decisões favoráveis aos interesses dos capitalistas. a ameaça de desinvestimento e mobilidade do capital é sempre um pano de fundo para discussão das políticas públicas e assim, políticos, qualquer que seja sua orientação ideológica, são forcados a se preocupar em sustentar um "bom clima para os negócios". [nota da adelaide #3: mais para frente, em parte deste texto que não traduzi, wright escreve: “um setor publico forte e investimentos estatais podem enfraquecer a ameaça de retirada do capital” ;) #lula2018].

valores democráticos tornam-se vazios enquanto uma classe de cidadãos tiver prioridade sobre a outra.

5) elites controlam o sistema político

por último, gente rica tem mais acesso ao poder politico do que outras. esse é o caso em todas as democracias capitalistas, ainda que esse fenômeno seja maior em alguns países do que em outros.

os mecanismos específicos para conseguir mais acesso ao poder político variam: contribuição em campanhas políticas, financiar lobbies; formas variadas de network das elites; propinas e outras formas de corrupção.

nos eua, tanto indivíduos ricos como corporações capitalistas, não encontram qualquer restrição para a forma como usam recursos privados com objetivos políticos. esse acesso diferenciado ao poder político anula o princípio mais básico de democracia.

essas consequências são endêmicas do capitalismo enquanto sistema econômico.

(...)

as características antidemocráticas e anti-liberdade do capitalismo podem até ter paliativos, mas não podem ser eliminadas. domar o capitalismo com paliativos foi o objetivo central das políticas dos socialistas dentro de economias capitalistas. mas se liberdade e democracia são nossos objetivos, o capitalismo não pode ser apenas domado. tem que ser eliminado.


FIM!


Thursday, January 11, 2018

calendário bucetoterrorista educacional antifeminicida 2018



gastone, presente!



a bolagato edições anarcobucetalistas
(vulgo eu)
fez um calendário com aniversários
e biografias de 14 ativistas brasileiras da pá-virada
que foram assassinadas pelo Estado brasileiro.
são mulheres que lutaram contra a ditadura militar,
ativistas camponesas,
sindicalistas e quilombolas.
me foquei nas bucetalistas esquecidas
dessas histórias, o que significa 
basicamente
as nordestinas e as não-brancas.
o calendário pode ser adquirido
com doações de R$ 10,
via paypal,
e você recebe um pdf pra imprimir
em casa (e um vídeo com
orientações de como
montar seu calendário).

nós encorajamos 
você a xerocar e a dar de presente
pra todas as suas migas.
o valor de R$ 10 é pra
ajudar a manter meu trabalho
de ativista e de editora terrorista de biquíni.





se você não tiver paypal,
mande email para bolagato.edicoes@gmail.com
e eu passo os dados da minha cuenta.

screen shot do pdf
tudo meio magenta
tudo meio tosco
que é como tem que ser


bucetalismos