Thursday, November 30, 2017

"quem é que limpa aqui?" (entrevista de bini adamczak para o jornal freitag)


ilustra de ms. adamczak
pro seu livro "comunismo pra crianças"
inédito em brasileiro
alor editoras plmdds



entrevista de Florian Schmid com Bini Adamczak*
tradução do alemôo por Adelaide Ivánova**

link pro original: https://www.freitag.de/autoren/der-freitag/wer-macht-hier-sauber-1

O que liga a grande revolução comunista com as revoltas dos anos 60 e 70? Foram os objetivos nobres, e as formas como estes foram perseguidos, o motivo pelo qual elas não se tornaram realidade? Em Beziehungsweise Revolution. 1917, 1968, publicado pela Suhrkamp, ​​Bini Adamczak tenta desconstruir o dualismo de conceitos [da teoria marxista] como Contradição Principal e Contradição Secundária, Igualdade e Liberdade. Conversamos com a autora sobre isso.

Você escreve sobre a Revolução Russa e sobre 1968. Como esses dois eventos se unem em seu livro?
O século 20 foi marcado por essas duas ondas globais de revolução. Entre um e outro houve o nazismo mas também o estalinismo. 1968 foi uma repetição de 1917, que estava ligado a tradições ultrapassadas que foram destruídas pelo nazismo e transformadas em seu exato oposto pelo estalinismo. Mas 1968 também tenta se diferenciar de1917. O foco central, que em 1917 era a igualdade, muda: a liberdade vira o foco. Eu acho que 1968, a Nova Esquerda, tornou-se o prisma com o qual estudamos 1917 hoje em dia.

Você entende a Revolução de 1917 e os acontecimentos de 1968, como revoluções que deram errado. Mas o decorrer de ambas foram muito diferentes?
O fracasso é algo que vem da observação externa [de um evento]. Já o erro, por outro lado, é medido de acordo com os padrões internos [de um evento]. A revolução russa não foi esmagada pela contra-revolução; os socialistas foram vitoriosos na guerra civil. Mas, apesar de terem derrotado o inimigo externo, não conseguiram tornar em realidade suas próprias ideias do que era uma sociedade socialista ou uma vida comunista. Eles falharam em seus padrões internos porque, focados em ganhar, eles se tornaram tão disciplinados e autoritários que a razão pela qual eles iniciaram a revolução foi esquecida. Em 1968 a coisa muda. A onda revolucionária de 68 rodou o mundo.

Mas 1968 foi realmente uma revolução, como 1917, ou uma série de revoltas?
Ambos começam na periferia, rodam o mundo e terminam nos centros. Em 1917 foi a Alemanha, em 1968 foi a Europa e os EUA, mas 1968 começou nas batalhas contra o colonialismo, o Vietnã e a Argélia. Em nenhum lugar há vitória, ainda que no México e na França chegou-se perto de derrubar os governos. Mas, embora a revolução não seja vitoriosa, é muito bem sucedida no que diz respeito à transformação da sociedade.

No livro você diz que quer oferecer nada menos do que "um final alternativo para a trágica história das revoluções", com a ajuda da palavra "Beziehungsweise". O que isso quer dizer? [nota da Adelaide: Beziehungsweise é composta de duas palavras: Beziehung, que significa relação ou relacionamento; e Weise, que significa maneira. A tradução oficial e uso seria respectivamente, ou seja, melhor dizendo ou consequentemente, mas em todas falta essa ideia de "formas de relacionar-se", então vou utilizar aqui, por falta de um substantivo melhor, "co-relação", mas não é ideal!].
Interpreto as ondas revolucionárias de 1917 e 1968 sob à luz da Revolução Francesa, que foi quando o conceito de revolução surgiu. A Revolução Francesa veio ao mundo com o conceito de liberdade, igualdade e solidariedade.

Você não quer dizer "fraternidade"?
Sim, mas censuro essa palavra com uma piscadela feminista e chamo-a de "solidariedade" [nota da Adelaide #2: fraternité/fraternidade é traduzida para o alemão como Brüderlichkeit, sendo que Brüder é irmão, conferindo à palavra um tom masculinizado, hegemônico e não-inclusivo, e por isso a implicância da autora, que tá mais é certa!]. 1917 centra-se na igualdade, sendo seu contrário a homogeneização e totalitarização, o estalinismo. 1968 centra-se na liberdade, na diferença, sendo seu contrário a individualização, a fragmentação da sociedade. O slogan de Margaret Thatcher ("Não conheço mais a sociedade, mas apenas indivíduos e famílias") é a implementação disso. Ainda que diferentes em seus objetivos, em ambas as revoluções a solidariedade esteve presente, especialmente em letras de músicas, na produção cultural, que cria afetos, que leva as pessoas  às ruas, para ajudar uns aos outros, para sair da solidão e lutar juntos.

Não é a solidariedade algo fundamental para qualquer movimento emancipatório? Dificilmente um folheto da esquerda é escrito sem que apareça este termo.
Sim, mas a solidariedade foi muitas vezes percebida apenas como instrumento, tipo na formulação "Unidos venceremos, divididos perderemos". Pouco foi pensando que a solidariedade é também o objetivo da revolução. Criar relações solidárias entre as pessoas. 1917 focava-se no Estado; 1968, no sujeito. Isso também tem a ver com o fracasso [das revoluções], que reposicionou o foco para iniciativas menores, o que resulta, nos anos 70 e 80, num movimento de declínio, em que as pessoas dizem "precisamos mudar a nós mesmas, e depois a sociedade". Uma nova [percepção da] interioridade. Ambas as perspectivas [a do Estado e a do Sujeito] levaram a uma armadilha. A primeiro levou ao estalinismo, a segunda levou à individualização e fragmentação da sociedade e da Esquerda, que tem cada vez mais dificuldades de compreender a co-relação de seus diversos problemas. O conceito de co-relação tenta oferecer uma saída para esse dilema. O que as revoluções emancipatórias realmente tentam não é nem reinventar o todo em sua totalidade, nem criar um novo homem. Em vez disso, o foco está na transformação das relações, na forma que nos relacionamos, que interagimos uns com os outros. E isso eu examino particularmente usando relações sociais de gênero.

O gênero desempenha um papel central na sua análise. Classicamente, a esquerda viu a questão do gênero como uma contradição secundária. Você vai além disso. Isso é realmente novo?
Muitos antes já fizeram o diagnóstico de que em 1917 igualdade significava igualdade para os homens. Examino esse processo em áreas muito diferentes: na literatura, nos discursos médicos e científicos, na moda, nos corpos, na reprodução. O que há de novo é a constelação dentro da qual eu posiciono 1968. 1917 visa uma masculinização universal. Mas é somente através da lente do feminismo queer que reconhecemos a natureza radical deste modelo de emancipação. Não era simplesmente a ideia de que as mulheres se tornassem como homens, mas que continuassem a existir como dois gêneros. Com a ajuda de Judith Butler e outros, podemos ver que o objetivo desta revolução era, de fato, fazer com que todas as pessoas fossem homens. Em contraste com 1917, 1968 não sugere uma feminização geral, mas uma feminização diferencial. Isso significa que a feminilidade se torna mais dominante do que era antes e pode sair do domínio do consumo, da reprodução e do trabalho doméstico, onde antes estava limitada, para ocuper espaço na vida pública.

Mas como isso muda uma rebelião coletiva? Como isso parece na prática?
Isso faz com que, no debate político, as questões de reprodução não sejam afastadas. "Quem faz a limpeza?", "em qual privada sentamos?". Estas questões não são secundárias e possibilitam [focar] o que é realmente político, já que a divisão social burguesa sempre tenta nos desfocar. Na divisão social burguesa, todas estas questões são deixadas de lado para que se possa falar sobre [o que a divisão social burguesa considera] política. Não. Essas coisas são políticas sim, devem ser politicamente debatidas e, se não for assim, são privatizadas como tarefas típicas do feminino e transformadas em não-políticas. No momento em que essas áreas não-políticas são politizadas, qualquer protesto torna-se feminista. Então, já é sobre a crítica das relações de gênero.

Existem atualmente desdobramentos políticos, nos quais as co-relações desempenhem um papel?
Sim, vimos isso na última onda emancipatória de 2011, que rolou na metade do mundo, e mais recentemente na França com o Nuit Debout. Esta onda significou que as relações entre as pessoas foram alteradas. Não é coincidência que a palavra de ordem desse movimento seja "encontro". As pessoas se encontrem em público, ocupem o espaço público e não fazem demandas. As pessoas dizem: "Nós somos nossas demandas". Trata-se de mudar o relacionamento, "perder o medo um do outro", como um ativista de Occupy Wall Street escreveu. Uma mudança nos relacionamentos das pessoas já está ocorrendo. Este ativista descreve como ele sempre viveu com medo das pessoas lá fora. Você tem que se proteger, há crime, você tem que desconfiar dos outros. Você vive com os outros na base da concorrência. E então ele percebeu que ele estava falando com pessoas de quem ele tinha medo, e elas também tinham medo dele. Mas juntos, os medos podem ser reduzidos. Passa a existir uma relação de solidariedade que não é mais hierárquica, mas democrática.





*Bini Adamczak trabalha (de preferência não muito) como escritora, performer e artista visual. Estudou filosofia em Frankfurt e agora mora em Berlim.  Como muitas meninas em sua posição, ela sonha em fazer algo "real" ou "com as mãos" - por exemplo, para fazer uma revolução. Seu livro "Kommunismus. Kleine Geschichte wie alles anders wird", de 2004, foi traduzido pro inglês com o título "Communism for children" ("Communismo pra crianças"), e publicado pela MIT Press em 2017.

**Adelaide é anarcobucetalista e está trabalhando voluntariamente na tradução deste livro pro brasileiro e procura animada e incansalvemente uma editora que esteja disposta a publicá-lo.

Monday, November 06, 2017

mppf! #6 especial poesia caribenha sapoti/sapatão em tradução e sendo vendida online à base de doação yeah


nada me autoriza muito a editar esse zine a não ser desejo de ser menos ignorante em relação aos nossos vizinhos e vizinhas poetas caribenhos. a ideia de fazer essa edição nasceu da minha ignorância. tudo o que eu sabia sobre o caribe era que rihanna é de barbados. e já que transar é a medida de todas as coisas no meu mundo, fui atrás de desconhecer menos o caribe por meio de sua poesia erótica contemporânea.


capa

contra-capa
(tubinhos, gente!)



encontrei um livro chamado caribbean erotic (da editora peepal tree), de contos, ensaios e poesia, de onde tirei 9 dos 11 poemas dessa edição (menos rihanna e raquel salas rivera). um dos ensaios desse livro é o de imani m. tafara ama, “normas e tabus da sexualidade” no qual, entre outras coisas, ela trata das relações de poder e gênero dentro da cultura popular na jamaica – mais precisamente do dancehall. imani aponta como as “dancehall queens” distorcem conceitos burguês de decência, ao mesmo tempo em que tentam se ajustar às demandas sexistas e misóginas dos “rudeboys” – espécie de gangue masculina dentro do dancehall e que eu só conhecia por causa da música de riri (orgulhosamente traduzida nessa edição).

capa do zine, com ilustração de gerard fortune (haiti)


a leitura do ensaio me despertou mais curiosidade sobre a situação da mulher caribenha, pela semelhança que vi entre o que imani descreve e as manifestações culturais no brasil.

durante as pesquisas, descobri que 1/3 das caribenhas já sofreu violência sexual e que, segundo a ONU, os índices de violência doméstica no caribe estão bem acima da média mundial, com 3 países do caribe na lista dos 10 com maiores índices de estupro do mundo. aí fiquei me perguntando: qual a relação da mulher caribenha com o brasil? ela existe?

pois existe: segundo o CONARE (comitê nacional para os refugiados), os países com maior número de solicitantes de refúgio no brasil em 2016 foram venezuela (3.375), cuba (1.370), e haiti (646), todos países caribenhos (também estão na lista além angola e síria). não encontrei dados sobre a quantidade de mulheres por país solicitante mas, do total de cerca de 10 mil refugiados no brasil, 32% são mulheres. o caribe está entre nós. as mulheres caribenhas estão entre nós.

pode parecer disparatado eu estar falando disso num editorial de um zine véi de poesia pornô, mas não é: não bastasse eu ser mulher, esse zine tem uma preocupação civil. seria impensável publicar o trabalho de mulheres caribenhas sem abordar um pouco questões atuais das vidas dessas populações, além da literatura (até porque literatura e política não são coisas separadas). são conexões difíceis de traçar, mas que fazem parte da preocupação minha e das pessoas que ajudam esse zine a existir. assim sendo, o “lucro” das vendas desse zine (entre aspas porque né, lucro é o que faz a monsanto, nóis do zine junta umas moeda) será doado para a equipe de base warmis – convergência de culturas, grupo de mulheres imigrantes e brasileiras que lutam pelos direitos de imigrantes mulheres.



o valor sugerido das doações é a partir de R$ 3, mas você pode doar menos ou mais. daí você recebe um pdf do zine no seu email. caso não tenha paypal (#bitchplease!), mande email para bolagato.edicoes@gmail.com e te mando os dados da conta-corrente da warmis.

uma vez que você receber seu zine, pode imprimi-lo, xerocá-lo, fazer o que quiser com ele, quantas vezes quiser. essa edição do zine foi feita em formato retrato A4 exatamente para que você possa imprimir as páginas avulsas e colá-las nas paredes do seu mundo.

não acreditamos em copyright, só em human rights.

beijos,
adelaide




a edição #6 do MAIS PORNÔ, POR FAVOR! tem poemas de afua cooper (jamaica), aurora ferguson (bahamas), colin robinson (trinidad y tobago), lelawattee manoo-rahming (trinidad y tobago), omi j. maya taylor-holmes (não achei país nem ano), raquel salas rivera (porto rico), rihanna (barbados), rosamond s. king (não achei país nem ano), sajoya (jamaica), sandra garcía rivera (porto rico/eua) e paula obé (trinidad y tobago) traduzidos por rafael mantovani (caruaru brinks são paulo), andré capilé (barra mansa), carol morais (recife), angélica freitas (pelotas), mafalda gomes (porto), j. carlos teixeira (porto), chris daniels (oakland), cecília floresta (são paulo), nina rizzi (campinas) e adelaide ivánova (recife). 

o MPPF! é um zine independente, anarcobucetalista, que se apropria do termo "pornografia" para espalhar no mundo poesia erótica queer e feminista (brasileira, portuguesa e em tradução), com o objetivo de torcer a lógica misógina, sexista, transfóbica, homofóbica e capitalista do pornô mainstream.